Icterio

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Episódio 1, princípio dos anos 90 (algures nos céus da Sardenha)

Com a reunificação da Alemanha no principio dos anos 90 a Luftwaffe absorveu um esquadrão de MiG-29 Fulcrum nas fileiras.  A NATO possuía agora um dos mais temidos caças soviéticos em "carne e osso" e abriam-se novas oportunidades para analisar este aparelho ao pormenor.  Pilotos de caça ingleses, americanos, alemães, belgas e de todos os cantos da Aliança Atlântica empurravam-se para poder ver de perto uma das suas Némesis dos tempos da guerra fria.  Habituados a ler as capacidades dos aviões russos em manuais, relatórios técnicos e simulações de computador, tinham agora finalmente a oportunidade de enfrentar a "sério" o supostamente invencível MiG.  Durante vários anos os pilotos da JG 73 atingiram um nível de popularidade digno de estrelas de Hollywood, com convites para treinos DACT (Dissimilar Air Combat Training) a chover de todos os lados.  Caso para se dizer; o telefone tocava mesmo desligado.  No seu último destacamento de treino na Sardenha, o Comandante Inglês Ade Orchard (Sea Harrier FA2) teve finalmente a oportunidade de o enfrentar...

Durante aos anos 80 o Fulcrum representava todos os aspectos positivos da Força Aérea Soviética mas também tinha pontos fracos.

Sendo um derivado do original Harrier GR.3, um avião pensado para ataque e apoio próximo, a versão Sea Harrier estava longe de poder ser considerada um caça puro. 
« Última modificação: 21 de Dezembro 2020, 15:57:21 por Icterio »


Icterio

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Episódio 2, princípio dos anos 90 (algures nos céus da Sardenha)

(Uma nota antes de passar ao relato do Ade; depois de anos a ler sobre aviação maioritariamente em Inglês (talvez 95%) por vezes torna-se difícil traduzir para Português algumas expressões ou termos técnicos.  Por isso, quando em dúvida, acho melhor usar os termos originais e acredito que será perfeitamente compreensível.  Se houver dúvidas podemos esclarecer em conversa.  E daqui para a frente, em posts futuros, irei seguir o mesmo rumo.)

"Devo dizer que o meu combate contra o MiG-29 foi tão entusiasmante como esperava mas também demonstrou plenamente os compromissos que os engenheiros russos foram forçados a aceitar em busca da tão desejada manobralidade.  Durante a preparação do nosso encontro ficou definido que nos iríamos encontrar numa altitude e localização pré-definidos, o que mostrava a dependência do piloto (da ex-Alemanha de Leste, portanto treinado segundo padrões soviéticos) do controlo de terra e a pouca familiarização com o seu próprio radar e sistemas de navegação.  O meu Sea Harrier FA2 transportava AIM-120 AMRAAM de médio-alcance, além dos habituais AIM-9M, e ficou combinado que tentaríamos, numa primeira fase, tentar "abater" mutuamente com disparos além do alcance visual e de seguida, independentemente do resultado anterior, seguiria-mos para um combate visual (dogfight).  O MiG carregava os AA-10A Alamo semi-activos e os temíveis AA-11 Archer de curto-alcance."

"Nunca irei esquecer este combate.  Consegui detectá-lo (e adquiri-lo) facilmente com o meu radar e destruí-lo com um AMRAAM certeiro.  O Blue Vixen era um equipamento excelente, um dos melhores radares pulse-doppler da época.  Quanto ao MiG, nem se esforçou em manobrar para dificultar a aquisição nem para evitar o meu disparo.  Outra coisa curiosa; ele não disparou um Alamo contra mim sequer.  Será falha do seu equipamento ou pouca experiência na manipulação dos sistemas?  Não, rapidamente cheguei a outra conclusão; este tipo não está aqui para combates a longa distância, o que ele quer é chegar rapidamente ao alcance visual e despachar-me com estilo!"

"Rapidamente vejo um trilho preto de fumo...  Mais rapidamente ainda passa sobre o meu lado esquerdo e vejo claramente o capacete do piloto a mexer-se na minha direcção.  Ok, it's on!!"


« Última modificação: 23 de Dezembro 2020, 11:41:24 por Icterio »


Icterio

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Episódio 3 (Último), princípio dos anos 90 (algures nos céus da Sardenha)

O facto de eu ter visualizado o MiG rapidamente não foi um acaso.  Aqueles motores são bastante jurássicos - emite um rasto de fumo visível a mais de 15km - mas suficientemente poderosos para facilmente superar a relação peso-potência do meu Sea Harrier a médias altitudes.  Acrescentando a isto um dos primeiros modelos operacionais de mira montada no capacete (HMS) dos Soviéticos e, é caso para dizer, eu iria ter bastante com que me preocupar.  Mas voltando ao meu primeiro "merge" com o MiG-29, um que não esquecerei.  O rasto de fumo preto (maior que o do Phantom) torna-se mais notório ao desligar o afterburner porque os gases de escape ainda continham uma quantidade apreciável de combustível não queimado.  Quando estes restos são aquecidos, mas não o suficiente para provocar ignição, provoca a conhecida fumarada.  Seja o geringonça diesel do vizinho ou um Fulcrum, o resultado é o mesmo.


Depois de nos cruzarmos a alta velocidade eu sabia que para sobreviver teria de comprimir o raio de combate - a típica luta de facas dentro da cabine telefónica - limitando a vantagem do MiG que tinha um raio de curva mais apertado.  Mas isto não funcionou, o adversário conseguia 9g e o meu Sea Harrier, na configuração presente, conseguiria no melhor dos casos 5g.  Em 270º de curva o soviético, corrijo, o Alemão, corrijo novamente, o Alemão de Leste, porra, seja lá quem for, já estava nas minhas 6 horas!  Tento o máximo para lhe dificultar o tiro e não há nada pior para o ego de um piloto de caça que ser abatido a fogo de canhões.  E foi isso mesmo que aconteceu!  "You´re dead.", ouvi pelo rádio.  "Filho da p***!" pensava eu enquanto me preparava para o segundo round, mas agora veio ao de cima um dos preços a pagar pela soberba agilidade do MiG-29.  Enquanto o meu Sea Harrier podia continuar a lutar durante mais meia-hora - o consumo do Pegasus é muito contido a média altitude - o MiG teve de regressar de imediato à base com a luz de reserva acesa!  Bom, imagino que a ideia dos engenheiros na Mikoyan-Gurevich fosse; para quê carregar combustível para uma hora quando se mata os inimigos nos primeiros minutos.  Ok, faz sentido.


Estou confiante que se tivesse um F/A-18 Hornet, um dos aviões que adorei voar durante os 3 anos que passei em China Lake, na Califórnia, o resultado poderia ter sido diferente.  Bom, mas talvez sirva de consolação saber que se o meu disparo de AMRAAM a 30km de distância tivesse "contado" eu não teria de me preocupar com a agilidade e os canhões do MiG.

Mas nada serve de consolação a ser abatido por canhão.

op59980

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:D
Excelente. Agradeço partilha.
Cpts,
op59980

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