jopeg

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TAP: "Na primeira classe havia caviar à discrição e champanhe francês"

28/09/2016 - 18:32 | VIAGENS
texto Marta Gonçalves Miranda

A NiT entrevistou uma assistente de bordo que entrou para a companhia na década de 60. Na era de ouro da TAP, havia caviar à discrição, charutos e champanhe.

Maria Teresa Monteiro de Oliveira tinha 21 anos quando entrou para a TAP. Foi o seu primeiro trabalho: depois de tirar o 12.º ano e de fazer um curso de Inglês, viu um anúncio da companhia aérea portuguesa e decidiu concorrer. Nunca tinha voado na vida, mas desde miúda que sonhava trabalhar lá em cima. "Foi uma época de grande glamour. Toda a gente queria ser hospedeira de bordo, não havia rapariga nenhuma que não o quisesse ser", conta à NiT.

A comida era servida numa bandeja, havia caviar à discrição, serviam-se copos de champanhe Moët & Chandon e davam-se charutos Montecristo aos passageiros juntamente com o café. Teresa Monteiro — todas as hospedeiras do ar tinham um “nome de guerra”, este era o de Teresa — trabalhou 32 anos da TAP. Foi hospedeira privativa do Papa João Paulo II, serviu champagne a Amália Rodrigues para a ajudar a dormir (ela tinha pavor de voar) e viajou para Paris de propósito para servir de modelo às revolucionárias fardas da companhia no final da década de 60.

Como é que surgiu a oportunidade de se inscrever para a TAP?
Vi um anúncio a pedir hospedeiras do ar — antes do 25 de Abril, éramos hospedeiras do ar, não éramos assistentes de bordo. Já não me lembro onde é que o vi, mas sei que pediam hospedeiras do ar para a TAP, e decidi concorrer. Fui ao departamento de recrutamento da TAP, na altura ficava no Conde Redondo, e inscrevi-me. Recebi um papel, onde escrevi o meu nome, idade, estudos. Tinha de ser solteira, antes do 25 de Abril não podíamos entrar se fossemos casadas. E também tive de dar o nome de três abonadores.


Abonadores?
Abonadores eram pessoas que se responsabilizavam por mim. Era como se fossem os padrinhos. Tinham de ser pessoas idóneas, que se responsabilizassem por nós. Era obrigatório. Isto foi há 50 anos, agora está tudo diferente.


Havia outros requisitos para concorrer para a TAP?
Tínhamos de falar Inglês e Francês e de ter uma cultura geral comprovada. Isto porque depois éramos chamadas (ou não) para fazer provas perante uma comissão de avaliação composta por três pessoas: uma que fazia perguntas de cultura geral, outra que via a nossa apresentação e outra que falava línguas connosco. Depois chegavam a uma conclusão.


Era um processo complexo.
Éramos analisadas ao pormenor. Entrávamos individualmente, tínhamos de falar em Inglês e em Francês. Faziam-nos inclusivamente perguntas em francês e em inglês. E cultura geral comprovada: por exemplo, quem é que tinha escrito "Os Maias", perguntas sobre escritores portugueses, ingleses ou franceses. Países... Mas principalmente sobre literatura. E pronto, tínhamos de ter um certo padrão de beleza, que correspondesse às exigências da companhia.


Foi aprovada, claro.
Sim. Mas a seguir ainda vieram as provas médicas. Viam-nos da cabeça aos pés, para ver se estávamos em condições físicas para voar. Depois disso tudo, então, fazíamos um curso de cinco semanas, que com as práticas chegava aos três meses. Eu fiz o curso em fevereiro de 1967. Éramos 26 tripulantes de cabine, entre rapazes e raparigas.


Não eram muitas pessoas?
Entre 1959 e 1973 houve um crescimento espetacular da companhia. O engenheiro [Alfredo] Vaz Pinto (presidente do conselho de administração da TAP) soube aproveitar a melhoria da economia mundial da altura e o aumento significativo na procura do transporte aéreo. Foi um grande presidente, almejava os padrões elevados de qualidade e eficiência. O engenheiro Vaz Pinto queria o melhor.


O que é que aprendiam no curso?
Tínhamos muitas disciplinas: legislação, regulamentação da companhia nacional e internacional, transporte de matérias perigosas, comportamento e relações humanas, primeiros socorros. Chegámos a ir para a Maternidade Alfredo da Costa assistir a partos. Uma das minhas colegas até desmaiou. Assistimos a todo o género de partos, desde cesarianas a parto natural, a fórceps... assistimos a tudo, porque se acontecesse alguma coisa a bordo, nós tínhamos de estar minimamente preparadas. E fazíamos exames, de salvamento sobretudo, era a disciplina mais importante. Aliás, sempre que atravessávamos o Atlântico tínhamos exercícios de salvamento.


Que género de exercícios?
No Palácio Benagazil, no aeroporto, havia uma piscina. E também fomos a uma piscina no Areeiro. Fazíamos exercícios de salvamento: nadar com e sem colete, virar o barco de sobrevivência. Em terra, tínhamos exercícios de saltos da manga, de apagar fogos. Mesmo depois de entrar para a companhia estávamos permanentemente a fazer isto, quase todos os meses. E, como já disse, sempre que íamos atravessar o Atlântico.


Teve estes exames teóricos e práticos durante cinco semanas. E a seguir?
Éramos largadas. Tínhamos de fazer um voo e éramos avaliadas por um instrutor, uma pessoa que examinava a nossa prestação. Eu fui largada num Caravelle [primeiro avião comercial a jato de curto e médio curso] para Copenhaga e pronto, tive sorte. Fui largada e bem largada [risos].


E começou a voar.
A partir daí já podia voar "on my own". Tornei-me hospedeira do ar B — só trabalhava na classe turística. Meses depois tirei um curso, que tinha a duração de cerca de um mês, para trabalhar na primeira classe. Era um curso focado principalmente na hotelaria: tínhamos de saber as regiões demarcadas dos vinhos, por exemplo.


Mas fez outras coisas para a TAP.
Sim, assim que entrei quiseram logo que fizesse publicidade para a TAP. Tornei-me na imagem da companhia em todo o lado — revistas, catálogos, nas delegações da TAP em todas as partes do mundo. Fui fotografada por imensos profissionais para a companhia, com apenas 21 anos. Também fui para Paris ao atelier do costureiro francês Louis Feraud para servir de modelo para as novas fardas da TAP [introduzidos em 1969]. A primeira farda feita por um costureiro francês para a TAP, a vermelha, foi feita para mim.

"A Amália Rodrigues, por exemplo, era uma pessoa que tinha pavor de andar de avião. Eu dava-lhe champanhe até adormecer. Pronto, passava-lhe logo o medo"

Foi de propósito a Paris?
Fui, com uma colega minha. Para ela foi feita a farda amarela. Depois lembraram-se das mais gordinhas e foi feita uma farda azul. Também tínhamos todas um casacão azul. Desfilámos essas fardas juntamente com os manequins do Feraud no Hotel Avenida Palace [Lisboa]. Foi um sucesso.


Havia muito cuidado com a vossa aparência.
Claro. A nossa farda anterior, quando entrei para a companhia, foi desenhada pelo Sérgio Sampaio, um grande costureiro e alfaiate. Era um farda azul cinza, muito "farda". Quando passámos para o Feraud, foi o oposto. Ele pôs-nos minissaias e, claro, foi uma surpresa nos aeroportos. Era uma farda colorida, minissaias, nós todas muito novas e muito elegantes. Aquilo era um “vistaço” que fazíamos nos aeroportos, ficava toda a gente a olhar para nós.


A TAP deve ter investido muito dinheiro na altura.
A companhia estava cheia de dinheiro. O engenheiro Vaz Pinto inclusivamente dividia os lucros da TAP por todos nós. Era fantástico. Até tínhamos um transporte que nos vinha buscar a casa. Com um bagageiro e tudo, eu nem pegava nas malas. Foi uma época de grande glamour. Toda a gente queria ser hospedeira do ar, não havia rapariga nenhuma que não o quisesse.


Qual era o vosso salário?
Em 1967, eu tinha um vencimento fixo de 5.600 escudos (o equivalente a 1.913€). Por mês. Isto quando eu entrei. É muito. Sempre tivemos muito bons salários.


Como era voar em primeira classe?
Era um requinte. A baixela era toda em porcelana, os talheres em cristofoli, toalhas e guardanapos em pano. A comida era do melhor que havia, feita pelos melhores cozinheiros de Lisboa. Os vinhos eram todos muito bem escolhidos, havia caviar à discrição, champagne francês — Moët & Chandon, Codorníu, Cordon Rouge. As refeições eram todas muito boas, faisão, tudo o que possa imaginar de melhor. E depois com uma apresentação muito elegante: a comida era servida em bandejas, depois passava o carro das sobremesas com doces, queijos e fruta. Era tudo como num restaurante de cinco estrelas. Também dávamos perfumes aos passageiros, homens e mulheres.


Davam?
Sim, dávamos, oferecíamos. Estamos a falar da era de ouro da TAP. Era uma época em que a companhia tinha dinheiro para tudo. E também só viajavam em primeira classe empresários, cuja viagem era paga pela empresa, ou pessoas com um grande estatuto económico.


E na classe turística?
Também havia muito boa comida. Nós portugueses sempre fomos muitos hospitaleiros, e isso sentia-se na década de 60. Aliás, a TAP era considerada na altura uma das melhores companhias do mundo.


Mas imagino que não houvesse pratos de porcelana na classe turística.
Não, era uma melamina. O individual era de papel e os talheres iam envolvidos num guardanapo também de papel. Os copos eram de plástico.


E podia-se fumar dentro do avião?
Podia, claro. Infelizmente, eu nunca fumei. Na primeira classe davam-se charutos com o café, do melhor que havia. Montecristo, por exemplo. Cá atrás não, mas as pessoas fumavam. Onde queriam e como queriam.


E como é que entretinham os passageiros?
Não havia televisão. Iam-se entretendo. Liam, dormiam, nós também passávamos muito pela cabine, falávamos com eles. E isso era muito importante. Também eram menos os passageiros. Mas ainda bem que começaram a aparecer os filmes. Aliás, quando um voo se atrasava, ligava logo os filmes do Mr. Bean [década de 90] para pôr toda a gente a rir.


Quantas vezes é que as hospedeiras do ar voavam por mês?
Muitas vezes. Nem havia limite, o nosso sindicato pouco funcionava até ao 25 de Abril. Voávamos muito, mas também como éramos novas, não tínhamos problemas nenhuns. Chegava a fazer cem horas por mês. Passava por aqui [Lisboa], estava oito dias em Luanda, oito dias no Rio de Janeiro. Tínhamos era estas estadias grandes, descansávamos nesses sítios. Ficávamos nos melhores hotéis, nos melhores de todos. Em todo o lado: Nova Iorque, Rio de Janeiro, Canadá, Caracas. Em todo o mundo, ficávamos sempre nos melhores hotéis. Nunca nada inferior a cinco estrelas.


Era um luxo trabalhar para a TAP?
Era. Era. Nem toda a gente conseguia entrar, e nós gostávamos de facto do que fazíamos. Tínhamos prazer em andar ali. Uma vez uma passageira disse: "Gosta mesmo do que faz, não gosta?". Eu respondi: "Eu gosto." "É que está sempre com um sorriso." "Pois estou, então... estou contente, estou satisfeita." Sempre encarei o avião como sendo a minha casa, e os passageiros os meus convidados. Eu só queria que se sentissem bem.


Isso é um pensamento bonito.
Eu só queria que se sentissem bem dentro do avião. Havia muitas pessoas que tinham medo. A Amália Rodrigues, por exemplo, era uma pessoa que tinha pavor de andar de avião. Eu dava-lhe champanhe até adormecer. Pronto, passava-lhe logo o medo. Dei a mão a muita gente também, às vezes pediam-me para fazer a aterragem ao lado delas, e eu fazia-o, ia de mão dada com as passageiras.


Viajou com muitos famosos?
Sim, viajei com muitos passageiros famosos. O mais famoso foi, já depois da década de 60, o Papa João Paulo II. Fui hospedeira privativa dele.


Como foi viajar com o Papa?
Ele era uma pessoa de uma simplicidade enorme. Lembro-me de uma situação em que ele estava com três cardeais à mesa e estava a beber vinho branco. Quando veio o prato de carne, perguntei-lhe se queria vinho tinto. Ele disse que sim. Quando eu ia apanhar outro copo, ele disse-me: "Não, não, pode ser mesmo neste." E eu disse-lhe: "Não Santo Padre, vou-lhe dar outro copo, então" [risos].


Qual foi o voo mais difícil da sua carteira?
Foi um charter em que fomos a Las Palmas buscar marinheiros que iam para a África do Sul, Joanesburgo. O avião atrasou e eles tiveram tempo em terra para beber bastante. Quando chegaram a bordo, já estavam alcoolizados. Quando começámos a servir as refeições, aquilo transformou-se num pandemónio. Esfregaram com manteiga e com comida na cara uns dos outros, houve pancada, estavam a brigar uns com os outros.


O que é que fizeram?
Fomos ao cockpit, explicámos o que é que se estava a passar, e o comandante mandou as senhoras ficarem todas no cockpit. Os homens foram para a cabine tomar conta deles. Não lhes deram nem mais um gota de álcool. Eles lá adormeceram — era um voo noturno. Mas foi um grande pandemónio. Foi uma viagem muito complicada.


Lembra-se de outras situações complicadas?
Houve outro voo para São Paulo em que apanhámos uma turbulência tremenda. Havia poucos passageiros atrás e não tinha nenhum em primeira classe. Isto parece mentira, mas eu ia a ler um livro que se chama "Voando para o Perigo". Ainda me lembro, parece uma anedota. Toda a gente teve de se sentar e apertar os cintos de segurança.


A turbulência era muito forte?
O avião virou casquinha de noz. E ali era muito perigoso, porque há muitos morros para São Paulo. O comandante Zé Faria teve mão naquilo e fez uma bela aterragem, mas as pessoas gritavam de medo lá atrás. Foi uma coisa mesmo muito má. Mas o que eu achei graça foi estar a ler um livro chamado "Voando para o Perigo" e estar-me a acontecer aquilo.


http://www.nit.pt/article/09-28-2016-tap-quando-um-voo-se-atrasava-ligava-os-filmes-do-mr.-bean-para-por-toda-a-gente-a-rir

Como as coisas mudaram desde essa época ...

Jopeg

iSeven

  • Mensagens: 544
Um testemunho muito interessante! Como as coisas eram (só consigo imaginar) e como são hoje... É, de facto, uma diferença abismal.
« Última modificação: 29 de Setembro 2016, 17:50:46 por iSeven »


Spak

  • Mensagens: 5442

Pedro Xavier

  • Mensagens: 63
Qual era o vosso salário?
Em 1967, eu tinha um vencimento fixo de 5.600 escudos (o equivalente a 1.913€). Por mês. Isto quando eu entrei. É muito. Sempre tivemos muito bons salários.


Boa noite,

5.600 escudos são cerca de 28€...

Abç

Pedro Xavier

sdo

  • Moderador
  • Mensagens: 608
Ajustado à inflação...

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