Marta

O meu processo de recrutamento para a TAP começou com uma candidatura espontânea para o Contact Center, que era o trabalho oferecido pela TAP mais adequado às minhas habilitações. No entanto, este processo de recrutamento teve algumas coisas em comum com o dos assistentes de bordo. Portanto, este testemunho pode interessar também às pessoas que se estejam a candidatar para outras posições.
Quando se faz uma candidatura espontânea, a resposta geralmente ou vem passado muito tempo ou não vem de todo. Mas contrariamente ao que estava à espera, recebi uma resposta da TAP na mesma semana em que me candidatei, através de um e-mail que me convocava para estar presente na “pré-seleção – avaliação de línguas”, a ter lugar na semana seguinte. Deveria estar lá às 10h30 e a chamada seria feita “por ordem de chegada”.

1. Pré-seleção/línguas
Na verdade, não houve ninguém que registasse a chegada dos candidatos à sala de espera, portanto o atendimento não foi feito segundo critério nenhum, dando oportunidade aos chico-espertos que chegaram atrasados de passarem à frente e serem entrevistados primeiro do que os que foram pontuais. (Mas já agora deixo aqui registado que esses chico-espertos não passaram para a fase seguinte, ahah.)
Depois de esperar cerca de duas horas, fui entrevistada em português e nas línguas estrangeiras a que me candidatei. A entrevista consistiu nas perguntas normais básicas que se fazem numa entrevista de trabalho – formação académica e profissional, interesses, etc. Uma pessoa com conhecimentos de línguas entre B2-C1 não terá problemas com a entrevista. Por fim, explicaram-me oralmente as condições – passar por mais duas fases do processo de recrutamento e fazer uma formação de três semanas sobre o software de reservas Amadeus; se até aqui tudo correr bem, celebrar um contrato de um ano com a TAP e trabalhar por turnos. Pela formação recebe-se 400€ (muuito pouco para uma formação em Lisboa), depois o salário é de 600€ e tal, quase 700€, mais subsídio de refeição de 7€ por dia, e pode-se comer nas cantinas por 0,50€. Não me lembro bem do que me disseram porque foram muitos números e foi tudo assim explicado um bocado à pressa.
Recebi um e-mail a dizer que passava para a fase seguinte logo no dia a seguir.

2.
Esta é a fase da “avaliação psicológica”, que teve lugar na semana seguinte à da avaliação de línguas. Estava marcada para as 9h, mas já eram 11h e tal quando nos chamaram. A dada altura até me virei para uma colega na sala de espera e perguntei-lhe: “Será que a avaliação psicológica é isto? Deixam-nos aqui à espera o dia todo para ver se temos resistência?” Podia ser, mas não foi. Fomos todos para uma sala, em conjunto com os candidatos para assistentes de bordo. Tudo gente alta, magra, perfumada, maquilhada e bem penteada. Eu para chegar ao Campus da TAP antes das 9h, tive de apanhar um autocarro às 6h30, portanto não me peçam que esteja assim arranjada como eles, por favor. Se não tiver tido os olhos com ramelas, já deve ter sido uma sorte.
Começámos por fazer testes de lógica e de concentração. Se a seguir ao quadradinho preto vem uma bolinha branca, a seguir ao quadradão preto deve vir o quê? Uma bolona branca, uma bolona às risquinhas ou um triângulo? Esse género de exercícios (mas a dificuldade ia aumentando, é claro). Tínhamos um tempo limitado para os fazer, e acho que não seria possível completar nenhum até ao fim. Fizemos uns quatro ou cinco testes desse género, acho eu. Depois mudámos de sala e mostraram-nos uma imagem do teste de Rorschach para escrevermos numa folha aquilo que víamos na imagem. Por fim, o último exercício realizado em grupo foi uma espécie de debate, onde tínhamos de imaginar uma situação apocalíptica em que das doze pessoas descritas (exemplos: “homem de 30 anos toxicodependente”, “prostituta de 20 anos”, “padre de 70 anos”, etc.) só podíamos salvar seis, e seriam essas seis as únicas pessoas a existir no mundo. Quando foi aberto o debate, muita gente entrou logo em modo “Hunger Games” e começou a falar ao mesmo tempo e a atropelar os outros. Já tinha assistido a cenas semelhantes numa outra entrevista de emprego, mas o mais interessante é que aqui as senhoras de recursos humanos também estavam a falar entre si animadamente sobre coisas delas e pareciam não querer saber do que se estava a passar connosco. Comecei a pensar: “será que isto está a ser filmado? Será que não estão a prestar atenção de propósito para verem se nós reagimos? Ou será mesmo tudo uma palermice?”.  Saí da sala com essas perguntas e continuo sem saber a resposta.
A última parte da avaliação psicológica foi a entrevista individual. Aqui é me saltou mesmo a tampa (leia-se: não saltou, mas que fiquei arreliada, fiquei). A psicóloga fez-me as perguntas do costume sobre o que estudei, onde trabalhei, o que gosto de fazer nos tempos livres, porque gostava de trabalhar para a TAP, etc. Mas depois partiu para perguntas desconfortavelmente pessoais. “Os seus pais são divorciados? Há quanto tempo? Mas o seu pai ainda a ajuda? Que profissão têm os seus pais? Tem irmãos?”. Perguntou-me se eu tinha namorado, e eu disse que não. Então perguntou-me: “Porquê? Tem mau feitio?” Uma vez mais, comecei com as minhas teorias – será que estão a fazer de propósito para serem mal-educados e testarem a minha capacidade de lidar com esse género de situações? Ou isto é só mesmo falta de profissionalismo? A senhora perguntou-me também há quanto tempo estava desempregada, a quantas entrevistas de emprego já tinha ido, como é que faria se começasse a trabalhar em Lisboa e quanto é que custava arrendar um quarto. Perguntou-me se tinha problemas em gerir sentimentos de raiva, se era ansiosa, se era emotiva, se gostava de expressar os meus sentimentos, se era mais parecida com a minha mãe ou com o meu pai. A dada altura, distorceu o que eu disse e perguntou: “Então isso significa que é uma pessoa que diz sempre tudo o que tem a dizer, não é?” Fiquei confusa, mas corrigi-a e expliquei que não era esse o meu tipo de pessoa de todo, e que sou calma e não gosto de conflitos. A psicóloga raramente me olhou nos olhos; à medida que ia fazendo perguntas, tomava nota desenfreadamente de todas as minhas respostas. Desejou-me um bom dia, agradeci-lhe pelo tempo despendido e saí. Falei com os outros colegas que tinham estado a ser entrevistados por outras senhoras, mas que me relataram experiências semelhantes: “perguntaram-me se os meus pais vivem juntos”, “perguntaram-me se tenho namorado”...
Senti-me frustrada, irritada e também um tanto humilhada por ter tido de contar tanto sobre a minha vida. As minhas respostas, que foram sempre honestas, deixavam claro que era uma pessoa pobre, que não tinha tido sempre o melhor ambiente familiar, e que há já algum tempo que procurava trabalho sem sucesso. Pensei: “Devia ter mentido e inventado uma versão cor-de-rosa da minha vida. Se não me chamarem para a próxima fase, o que é que isso significa? Poderei estar a ser discriminada por vir de um ambiente desfavorecido?” Tal não aconteceu, e recebi no própria dia um e-mail em como estava apta na avaliação psicológica e passava para a fase seguinte. Mas como é que conseguiram corrigir aqueles testes todos das bolinhas e dos quadradinhos em tão pouco tempo? Eu sei lá, já estou por tudo. Se calhar nem olharam para aquilo.

3. Exames médicos
Fomos convocados para estar às 8h, em jejum, na Unidade de Cuidados de Saúde. Fizemos análises de sangue e urina, raio-X ao tórax, eletrocardiograma simples e tivemos uma consulta de medicina do trabalho. (Os candidatos a assistentes de bordo têm de fazer muito mais exames do que estes.) Passadas várias horas, concluí os exames e marquei uma consulta para ir receber os resultados na semana seguinte.
Quando fui receber os resultados, voltaram-me a fazer as perguntas de rotina: Costuma dormir bem? Tomou algum medicamento na última semana? Quando foi a última vez que foi ao dentista? E ao ginecologista? Disseram que estava tudo bem comigo e que iam transmitir os resultados ao recrutamento. Saí da UCS acompanhada por uma colega que tinha estado lá à espera mais de duas horas até ser atendida. Disse-me: “Bem, mas agora de certeza que nos dizem ainda hoje quando é que vamos começar a fazer a formação.” Só que não. Passou-se quase um mês até a TAP nos comunicar acerca da formação. Para uma pessoa como eu, que não vive em Lisboa, saber com antecedência dos detalhes da próxima fase teria sido importante para organizar a vida, procurar alojamento, etc. Mas não é como se fosse a primeira vez que as coisas não foram feitas como deviam.

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