Icterio

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Episódio 1, Novembro de 1944

Depois de abandonar a linha da frente na Roménia, numa fuga caótica e traumática com o exército soviético em feroz perseguição, a Jagdgeschwader 301 estabeleceu-se finalmente na Alta Saxónia no início de Setembro de 1944. Durante dois meses os pilotos e técnicos de manutenção puderam descansar e recuperar o fôlego mas sempre com muito trabalho em mãos.  Com a chegada de vários pilotos era necessário ensinar-lhes o mínimo para que pudessem enfrentar o inimigo com alguma hipótese de êxito.  Com a estrutura de treino da Luftwaffe em total colapso, os novos pilotos chegavam á "frente" com poucas dezenas de horas de voo ou eram transferidos de unidades de reconhecimento ou bombardeamento, ou seja, sem nenhum treino de caça.


Com a situação militar a deteriorar-se a cada dia, a JG 301 foi declarada apta para combate em meados de Novembro.  O Stab (HQ ou Quarter-General) e I./JG 301 ocuparam o aeródromo em Salzwedel, o II./JG 301 o de Sachau e o III./JG 301 o de Stendal.

 

O primeiro contacto com o inimigo ocorreu no dia 21 de Novembro quando uma impressionante armada de 1290 bombardeiros B-17 e B-24 acompanhados de 954 caças atacaram o centro da Alemanha.  Cada uma das "fortalezas aéreas" da USAAF era um alvo difícil de abater, cada bombardeiro transportava cerca de 10 Browning calibre 50 e, quando em formação cerrada, o fogo defensivo era absolutamente asfixiante.  Além disso, os pilotos de caças americanos eram bem treinados, experientes e agressivos e dispunham de material de enorme qualidade; P-47 Thunderbolt e P-51 Mustang.

Um Focke-Wulf Fw 190D-9 da 6./JG 301 no aeródromo de Sachau. 

Os aviões da JG 301 eram máquinas de combate capazes (Fw 190A-8 e A-9 com motores radiais BMW 801 e Fw 190D-9 com motores em linha Jumo 213) mas a inexperiência de muitos dos pilotos tornou-se aparente; no fim do ataque tinham perdido 20 aviões e 12 pilotos.  Sem tempo para recuperar desta "pancada", logo no dia 26 os americanos lançam 1137 bombardeiros e 732 caças contra Bielefeld e Hannover!  A capacidade de regeneração dos aliados estava fora do alcance da Luftwaffe.  Todos os 3 grupos da JG 301 receberam ordem de descolar e agrupar a grande altitude.  Quando os traços de condensação dos primeiros inimigos surgiram no horizonte os pilotos alemães atacaram.  Nos instantes iniciais vários B-24 foram abatidos e outros ficaram danificados, mas rapidamente os céus encheram-se de Mustangs sedentos de combate.  O caos tomou posse da situação; com as formações de combate desfeitas e a sofrer uma desvantagem de 5 para 1, os pilotos da JG 301 lutavam apenas pela sobrevivência.  Para os mais novos e inexperientes a situação era ainda mais difícil, para muitos este era o primeiro contacto com o inimigo e os céus da Alemanha em Novembro de 44 não eram o melhor local para a "primeira vez"...

 

Mesmo assim, quando cessaram os combates, os pilotos mais veteranos puderam contabilizar 22 aviões americanos abatidos.  Mas o preço a pagar foi avassalador, durante apenas uma semana de acção na defesa do Reich a JG 301 perdeu cerca de metade do seu complemento, 60 pilotos mortos ou feridos.  Para os sobreviventes o pensamento era soturno e fatalista; iriam chegar com vida a 1945?

Pilotos da 12./JG 301 em Stendal, 1944.  Apesar da aparente boa disposição muitos deles seriam mortos ou feridos antes do fim do ano...

Icterio

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Episódio 2, Dezembro de 1944

Depois de um Novembro traumático, o agudizar das condições meteorológicas sugeriam um Dezembro mais "tranquilo" mas, logo no dia 5, quase 600 bombardeiros acompanhados por 900 caças atacaram Berlim.  Todos os (poucos) aviões disponíveis foram lançados ao som de apelos de rádio desesperados dos controladores em terra;

"Dicke autos, begleitet von vielen indianern, im anflug auf Berlin!!" (*)

Poucos caças da JG 301 conseguiram chegar aos bombardeiros e após uma hora de combate intenso, os alemães abateram 10 caças P-51 Mustang e apenas dois B-17.  E o preço a pagar foi novamente elevado; 21 pilotos mortos ou feridos.  No dia 17 a JG 301 recebeu ordem para descolar pelas 11h00, o objectivo era uma pequena força de ataque que rumava a sul de Hannover mas protegida por um grande número de caças.  O I. e II./JG 301 ocuparam a escolta deixando o III gruppe liberto para atacar os bombardeiros.  Dois B-24 Liberator, um P-51 e um P-47 não regressaram a Inglaterra e as baixas alemãs resumiram-se a um único Fw 190A-8 (Amarelo 10) e um piloto ferido.  Um raro sucesso para a JG 301 celebrar.

Um Fw 190A-9/R11 do 4./JG 301 equipado con tanque externo e (abaixo) um Fw 190A-8 do Stab.

]

Em meados do mês a Wehrmacht lança a última grande ofensiva no ocidente numa tentativa desesperada de inverter o rumo da guerra; a batalha das Ardenas.  O plano era simples mas demasiado ambicioso; atravessar as densas e pouco defendidas florestas da Bélgica, dividir os aliados e capturar o porto de Antuérpia.  Inicialmente o mau tempo favoreceu os alemães ao manter no chão as poderosas formações aliadas de caças e bombardeiros mas passada uma semana o tempo melhorou e, na véspera de Natal, a Oitava Força Aérea americana lança um ataque recorde contra uma variedades de alvos nas costas do exército alemão; 2046 bombardeiros e 853 caças!  E como o grosso da Luftwaffe estava ocupada nas Ardenas a apoiar a ofensiva, a JG 301 ficou praticamente sozinha a defender o centro industrial da Alemanha!  E cada um dos bombardeiros B-17 ou B-24 era um adversário coreáceo, como conta o Feldwebel (sargento) Willi Reschke da 9./ JG 301;


"Ao atacar os B-17 não havia tempo para compensar a pontaria, o fogo defensivo não nos dava tempo para corrigir.  Na minha primeira passagem atingi um B-17 na asa e grandes fragmentos saltaram do revestimento de alumínio.  A seguir um dos motores incendiou e rapidamente o fogo alastrou e ganhou intensidade.  Pouco depois o meu "asa", Unteroffizier (cabo) Schalk, aproximou-se de mim, mas como durante os combates as transmissões de rádio são muito "agitadas", não conseguimos falar um com o outro.  Talvez o rádio dele estivesse avariado porque aproximou-se ainda mais e começou a fazer-me gestos.  Tentei usar o rádio novamente mas ele não reagiu.  Fiz-lhe gestos de que iria atacar outro B-17 e ele acenou positivamente com a cabeça.  Concentramos o nosso fogo noutro B-17 e foi uma questão de tempo até este começar a perder altitude.  Durante estes dois ataques esgotei a munição, outra prova da quantidade de chumbo necessário para lançar um B-17 ao chão, todos os pilotos sabiam disso.  Depois deste segundo ataque não vi o Schalk em lado nenhum e se não tens munição o melhor é evitar os caças inimigos!  Por isso desci imediatamente e regressei a Stendal pelo caminho mais curto.  Aterrei ás 15h40."

Esta imagem de um manual da Luftwaffe mostra bem o excelente poder de fogo e cobertura das várias armas do B-17.

Schalk acabou por aterrar num aeródromo diferente e passadas algumas horas também regressou a Stendal.  Durante este combate, além dos dois B-17 abatidos por Reschke, outros pilotos conseguiram mais um par de vitórias mas tendo em conta a dimensão do ataque americano, não eram mais do que pequenas alfinetadas num tiranossauro rex...

Com o aproximar do ano novo surgiam rumores cada vez mais persistentes que as wunderwaffe ("superarmas") iriam mudar o curso da guerra; desde aviões a jacto a misseis guiados até armas nucleares.  Mas para os desgastados pilotos da JG 301 que enfrentavam diariamente um inimigo numericamente muito superior e que avançava em três frentes a um ritmo assustador, as esperanças não eram muitas...     
 
(*) "Camiões (ou grandes carros) escoltados por índios em direcção a Berlim!" 
     "Camião" era um termo usado para identificar grandes bombardeiros e os "índios" eram os caças inimigos.
« Última modificação: 07 de Maio 2019, 19:01:39 por Icterio »


Icterio

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Episódio 3, 31 Dezembro de 1944

Na véspera de ano novo outro ataque maciço da USAAF; uma armada impressionante de 1315 bombardeiros pesados e 785 caças de longo alcance, suficientes para escurecer os céus da Alemanha.  Kassel, Kaiserslauten e Mainz foram os alvos desta vez.  O "nosso" conhecido Willi Reschke conta o que aconteceu a seguir;

"Logo depois de descolar, uma surpresa desagradável, quando liguei a mira Revi o círculo iluminado não apareceu. Regressar à base estava fora de questão, ainda dispunha de uma mira fixa tradicional, mas para a utilizar tinha de baixar bastante a cabeça. Apanhamos o primeiro grupo de B-24 Liberators desprotegido, pois os caças americanos estavam concentrados a cobrir a cauda da enorme formação.  Tentei compensar o tiro a "olho" mas as minhas rajadas passaram muito ao lado.  Conforme me ia aproximando usei os rastos dos projécteis como referência e quando vi impactos dos meus canhões MK 108 no alvo sabia que o B-24 estava condenado, pouco depois explodiu em pleno ar." 

O Mk 108 foi um dos mais eficazes canhões da guerra, uma obra prima de engenharia.  Muito compacto para uma arma automática de 30mm (conforme prova a imagem direita), simples e rápido de construir (recorrendo em larga escala a metal estampado) e extremamente destrutivo.  O som de disparo valeu-lhe a alcunha de "martelo pneumático".

"A seguir aconteceu algo que podia ter sido o meu fim; vi um ponto brilhante a sair da formação de bombardeiros e a aproximar-se rapidamente na minha direcção!  Instantaneamente senti um grande impacto no cockpit e o meu Fw 190 mergulhou de nariz.  Quando olhei para trás vi dois grandes buracos na "canopy", logo atrás da minha cabeça!  Entretanto surgiram os P-51 Mustang, interceptados rapidamente pelos Fw 190D-9 do II gruppe, responsável pela nossa protecção.  O curso dos eventos a seguir foi o usual, a cada minuto os caças americanos aumentavam em número e em pouco tempo os nossos aviões passavam de caçadores a presas, tentando todas as acrobacias para fugir aos inimigos.  Que bom seria combater em termos iguais, a JG 301 nunca teve esse luxo, lutamos sempre contra um adversário muito mais numeroso.  Nunca conhecemos um tipo diferente de combate, aliás, nem conseguíamos imaginar como seria..."

A mira giro-estabilizada padrão da Luftwaffe, Revi C12.  Na foto da direita, vê-se o circulo iluminado a funcionar correctamente, um luxo que Reschke não dispôs no dia 31 de Dezembro...

"Como tinha o avião muito danificado tentei descer mas agora os P-47 Thunderbolt juntavam-se à festa.  Os minutos seguintes foram terríveis, com toda a minha atenção focada na cauda enquanto tentava fugir do pandemónio de aviões inimigos e, como se não bastasse, o assobio do vento da "canopy" furada causava-me ainda mais stress.  Disparava sempre que podia, mas era mais para me acalmar porque sem a mira pouco podia fazer.  Finalmente consegui sair do combate e aterrei em Luneburg ás 12h10.  Enquanto reabastecia vi que, além da "canopy", as asas e a fuselagem estavam muito danificadas.  Quando regressei a Stendal e perguntei ao meu mecânico, o cabo August Napiwotzki, que a mira Revi não funcionou ele ficou muito vermelho e dirigiu-se para o hangar!  Voltou com uma lâmpada na mão - enquanto fazia a inspecção do meu avião durante a manhã, a lanterna fundiu e, como não tinha sobressalente à mão, decidiu usar a lâmpada da mira, mas esqueceu-se de a colocar no lugar!  Percebi que ele queria enfiar-se num buraco no chão e quando viu os estragos na "canopy" ficou branco como a cal.  O que é certo é que na noite seguinte, apesar de ser a passagem de ano, ele não deve ter dormido muito, pois cedo de manhã o meu Fw 190A-8 estava pronto e imaculado na pista.  Eu tinha mesmo um mecânico extraordinário!"

A Luftwaffe e a JG 301 entravam agora em 1945, o sexto e derradeiro ano da guerra.

Fw 190D-9, chamados habitualmente como "Dora-9", da oitava staffel da JG 301.

Icterio

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Episódio 4, Janeiro de 1945

Os primeiros dias de 1945 não foram diferentes dos últimos de 1944, mais ataques estratégicos americanos maciços, com intermináveis centenas de bombardeiros e caças de escolta.  Depois das pesadas baixas sofridas em Dezembro, a JG 301 (assim como todos os outros jagdgeschwader na defesa do Reich) estava muito longe da força máxima e o moral não melhorou com duas ordens surpreendentes do Alto Comando; primeiro, iriam ser transferidos para a Frente Leste!  Segunda novidade, o III gruppe tinha sido escolhido para receber o novo caça Focke-Wulf Ta 152H, uma evolução do Fw 190D.  Nesta altura a situação militar tinha piorado muito, a ofensiva nas Ardenas era um claro fracasso, os ataques Aliados intensificavam-se e os novos pilotos substitutos não estavam preparados para enfrentar o inimigo.  Em 4 de Janeiro todo o esquadrão foi transferido para Norte de Dresden.  O Stab e II gruppe estabeleceram-se em Welzow, o I gruppe em Finsterwalde e o III em Alteno, perto de Luckau. 



Como os novos Ta 152H não se materializaram, o III./JG 301 continuou a treinar pilotos nos Fw 190A-8.  No dia 14 de Janeiro regressaram ao combate, o objectivo, uma formação de 911 bombardeiros e 860 caças de escolta que se dirigiam para o Norte da Alemanha.  Aproveitando a excelente visibilidade desse dia e a sua superior altitude, os americanos surpreenderam os Fw 190 do III gruppe e abateram de imediato o líder da formação.  Depois deste abate o piloto do Mustang levantou o nariz para ganhar altitude e voltar a atacar mas Willi Reschke surgiu na sua cauda.  Os disparos dos seus canhões falharam por pouco a "canopy" do adversário que virou rapidamente sobre a asa esquerda.  Reschke não se impressionou, repetiu a manobra do americano, aproximou-se e atingiu o P-51 que, por momentos, quase parou no ar antes de cair sem controlo.  Durante este combate Reschke afastou-se da formação e decidiu regressar a baixa altitude à base.  Nesse momento avistou dois P-47 que se aproximavam pela direita.  Mas o seu Fw 190A-8 mostrou-se mais ágil a 2000m que os pesados e "imensos" aviões inimigos.  Numa rápida manobra, um dos P-47 foi atingido pelos disparos certeiros do Focke Wulf e começou a largar uma espessa cortina de fumo preto.  Abandonou rapidamente a área com o seu "asa" a imitá-lo, ambos com pouca vontade de continuar o combate. 

A baixas e médias altitudes o Fw 190A, equipado com o excelente motor radial BMW 801D, era um adversário muito perigoso para o pesado P-47 Thunderbolt.

Enquanto isto, os colegas de Reschke, atacados por numerosos P-51 com a vantagem da superior altitude, sofreram pesadas baixas.  O Stab perdeu um piloto, o I./JG 301 perdeu 11 aviões e 5 pilotos, o II./JG 301 perdeu 10 aeronaves e 9 pilotos e o III./JG 301 perdeu 6 aviões e 4 pilotos!!  Neste dia 14 de Janeiro de 1945, que ficou conhecido como "Domingo Negro", o geschwader sofreu a perda de quase um terço do seu pessoal, 19 pilotos mortos e 8 feridos.  A pressão psicológica nos pilotos restantes era esmagadora, especialmente para os menos experientes, que viam as hipóteses de perderem a vida no dia ou na semana seguinte, como uma certeza.  As esperanças de chegar ao fim da guerra eram cada vez mais ténues...

Um Fw 190A-8 do Stab do I./JG 301.  De notar a nova "canopy", que oferecia melhor visibilidade.

nunopinheiro

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Fabulosa ilustração

Byte Boador

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Obrigado pela partilha Icterio

Adorei a parte do mecânico que lhe "roubou" a lâmpada da mira para a colocar na lanterna  ;D
“Success is not final, failure is not fatal.
It is the courage to continue that counts“

Winston Churchill

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