Icterio

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Episódio 1, Novembro de 1944

Depois de abandonar a linha da frente na Roménia, numa fuga caótica e traumática com o exército soviético em feroz perseguição, a Jagdgeschwader 301 estabeleceu-se finalmente na Alta Saxónia no início de Setembro de 1944. Durante dois meses os pilotos e técnicos de manutenção puderam descansar e recuperar o fôlego mas sempre com muito trabalho em mãos.  Com a chegada de vários pilotos era necessário ensinar-lhes o mínimo para que pudessem enfrentar o inimigo com alguma hipótese de êxito.  Com a estrutura de treino da Luftwaffe em total colapso, os novos pilotos chegavam á "frente" com poucas dezenas de horas de voo ou eram transferidos de unidades de reconhecimento ou bombardeamento, ou seja, sem nenhum treino de caça.


Com a situação militar a deteriorar-se a cada dia, a JG 301 foi declarada apta para combate em meados de Novembro.  O Stab (HQ ou Quarter-General) e I./JG 301 ocuparam o aeródromo em Salzwedel, o II./JG 301 o de Sachau e o III./JG 301 o de Stendal.

 

O primeiro contacto com o inimigo ocorreu no dia 21 de Novembro quando uma impressionante armada de 1290 bombardeiros B-17 e B-24 acompanhados de 954 caças atacaram o centro da Alemanha.  Cada uma das "fortalezas aéreas" da USAAF era um alvo difícil de abater, cada bombardeiro transportava cerca de 10 Browning calibre 50 e, quando em formação cerrada, o fogo defensivo era absolutamente asfixiante.  Além disso, os pilotos de caças americanos eram bem treinados, experientes e agressivos e dispunham de material de enorme qualidade; P-47 Thunderbolt e P-51 Mustang.

Um Focke-Wulf Fw 190D-9 da 6./JG 301 no aeródromo de Sachau. 

Os aviões da JG 301 eram máquinas de combate capazes (Fw 190A-8 e A-9 com motores radiais BMW 801 e Fw 190D-9 com motores em linha Jumo 213) mas a inexperiência de muitos dos pilotos tornou-se aparente; no fim do ataque tinham perdido 20 aviões e 12 pilotos.  Sem tempo para recuperar desta "pancada", logo no dia 26 os americanos lançam 1137 bombardeiros e 732 caças contra Bielefeld e Hannover!  A capacidade de regeneração dos aliados estava fora do alcance da Luftwaffe.  Todos os 3 grupos da JG 301 receberam ordem de descolar e agrupar a grande altitude.  Quando os traços de condensação dos primeiros inimigos surgiram no horizonte os pilotos alemães atacaram.  Nos instantes iniciais vários B-24 foram abatidos e outros ficaram danificados, mas rapidamente os céus encheram-se de Mustangs sedentos de combate.  O caos tomou posse da situação; com as formações de combate desfeitas e a sofrer uma desvantagem de 5 para 1, os pilotos da JG 301 lutavam apenas pela sobrevivência.  Para os mais novos e inexperientes a situação era ainda mais difícil, para muitos este era o primeiro contacto com o inimigo e os céus da Alemanha em Novembro de 44 não eram o melhor local para a "primeira vez"...

 

Mesmo assim, quando cessaram os combates, os pilotos mais veteranos puderam contabilizar 22 aviões americanos abatidos.  Mas o preço a pagar foi avassalador, durante apenas uma semana de acção na defesa do Reich a JG 301 perdeu cerca de metade do seu complemento, 60 pilotos mortos ou feridos.  Para os sobreviventes o pensamento era soturno e fatalista; iriam chegar com vida a 1945?

Pilotos da 12./JG 301 em Stendal, 1944.  Apesar da aparente boa disposição muitos deles seriam mortos ou feridos antes do fim do ano...

Icterio

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Episódio 2, Dezembro de 1944

Depois de um Novembro traumático, o agudizar das condições meteorológicas sugeriam um Dezembro mais "tranquilo" mas, logo no dia 5, quase 600 bombardeiros acompanhados por 900 caças atacaram Berlim.  Todos os (poucos) aviões disponíveis foram lançados ao som de apelos de rádio desesperados dos controladores em terra;

"Dicke autos, begleitet von vielen indianern, im anflug auf Berlin!!" (*)

Poucos caças da JG 301 conseguiram chegar aos bombardeiros e após uma hora de combate intenso, os alemães abateram 10 caças P-51 Mustang e apenas dois B-17.  E o preço a pagar foi novamente elevado; 21 pilotos mortos ou feridos.  No dia 17 a JG 301 recebeu ordem para descolar pelas 11h00, o objectivo era uma pequena força de ataque que rumava a sul de Hannover mas protegida por um grande número de caças.  O I. e II./JG 301 ocuparam a escolta deixando o III gruppe liberto para atacar os bombardeiros.  Dois B-24 Liberator, um P-51 e um P-47 não regressaram a Inglaterra e as baixas alemãs resumiram-se a um único Fw 190A-8 (Amarelo 10) e um piloto ferido.  Um raro sucesso para a JG 301 celebrar.

Um Fw 190A-9/R11 do 4./JG 301 equipado con tanque externo e (abaixo) um Fw 190A-8 do Stab.

]

Em meados do mês a Wehrmacht lança a última grande ofensiva no ocidente numa tentativa desesperada de inverter o rumo da guerra; a batalha das Ardenas.  O plano era simples mas demasiado ambicioso; atravessar as densas e pouco defendidas florestas da Bélgica, dividir os aliados e capturar o porto de Antuérpia.  Inicialmente o mau tempo favoreceu os alemães ao manter no chão as poderosas formações aliadas de caças e bombardeiros mas passada uma semana o tempo melhorou e, na véspera de Natal, a Oitava Força Aérea americana lança um ataque recorde contra uma variedades de alvos nas costas do exército alemão; 2046 bombardeiros e 853 caças!  E como o grosso da Luftwaffe estava ocupada nas Ardenas a apoiar a ofensiva, a JG 301 ficou praticamente sozinha a defender o centro industrial da Alemanha!  E cada um dos bombardeiros B-17 ou B-24 era um adversário coreáceo, como conta o Feldwebel (sargento) Willi Reschke da 9./ JG 301;


"Ao atacar os B-17 não havia tempo para compensar a pontaria, o fogo defensivo não nos dava tempo para corrigir.  Na minha primeira passagem atingi um B-17 na asa e grandes fragmentos saltaram do revestimento de alumínio.  A seguir um dos motores incendiou e rapidamente o fogo alastrou e ganhou intensidade.  Pouco depois o meu "asa", Unteroffizier (cabo) Schalk, aproximou-se de mim, mas como durante os combates as transmissões de rádio são muito "agitadas", não conseguimos falar um com o outro.  Talvez o rádio dele estivesse avariado porque aproximou-se ainda mais e começou a fazer-me gestos.  Tentei usar o rádio novamente mas ele não reagiu.  Fiz-lhe gestos de que iria atacar outro B-17 e ele acenou positivamente com a cabeça.  Concentramos o nosso fogo noutro B-17 e foi uma questão de tempo até este começar a perder altitude.  Durante estes dois ataques esgotei a munição, outra prova da quantidade de chumbo necessário para lançar um B-17 ao chão, todos os pilotos sabiam disso.  Depois deste segundo ataque não vi o Schalk em lado nenhum e se não tens munição o melhor é evitar os caças inimigos!  Por isso desci imediatamente e regressei a Stendal pelo caminho mais curto.  Aterrei ás 15h40."

Esta imagem de um manual da Luftwaffe mostra bem o excelente poder de fogo e cobertura das várias armas do B-17.

Schalk acabou por aterrar num aeródromo diferente e passadas algumas horas também regressou a Stendal.  Durante este combate, além dos dois B-17 abatidos por Reschke, outros pilotos conseguiram mais um par de vitórias mas tendo em conta a dimensão do ataque americano, não eram mais do que pequenas alfinetadas num tiranossauro rex...

Com o aproximar do ano novo surgiam rumores cada vez mais persistentes que as wunderwaffe ("superarmas") iriam mudar o curso da guerra; desde aviões a jacto a misseis guiados até armas nucleares.  Mas para os desgastados pilotos da JG 301 que enfrentavam diariamente um inimigo numericamente muito superior e que avançava em três frentes a um ritmo assustador, as esperanças não eram muitas...     
 
(*) "Camiões (ou grandes carros) escoltados por índios em direcção a Berlim!" 
     "Camião" era um termo usado para identificar grandes bombardeiros e os "índios" eram os caças inimigos.
« Última modificação: 07 de Maio 2019, 19:01:39 por Icterio »


Icterio

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Episódio 3, 31 Dezembro de 1944

Na véspera de ano novo outro ataque maciço da USAAF; uma armada impressionante de 1315 bombardeiros pesados e 785 caças de longo alcance, suficientes para escurecer os céus da Alemanha.  Kassel, Kaiserslauten e Mainz foram os alvos desta vez.  O "nosso" conhecido Willi Reschke conta o que aconteceu a seguir;

"Logo depois de descolar, uma surpresa desagradável, quando liguei a mira Revi o círculo iluminado não apareceu. Regressar à base estava fora de questão, ainda dispunha de uma mira fixa tradicional, mas para a utilizar tinha de baixar bastante a cabeça. Apanhamos o primeiro grupo de B-24 Liberators desprotegido, pois os caças americanos estavam concentrados a cobrir a cauda da enorme formação.  Tentei compensar o tiro a "olho" mas as minhas rajadas passaram muito ao lado.  Conforme me ia aproximando usei os rastos dos projécteis como referência e quando vi impactos dos meus canhões MK 108 no alvo sabia que o B-24 estava condenado, pouco depois explodiu em pleno ar." 

O Mk 108 foi um dos mais eficazes canhões da guerra, uma obra prima de engenharia.  Muito compacto para uma arma automática de 30mm (conforme prova a imagem direita), simples e rápido de construir (recorrendo em larga escala a metal estampado) e extremamente destrutivo.  O som de disparo valeu-lhe a alcunha de "martelo pneumático".

"A seguir aconteceu algo que podia ter sido o meu fim; vi um ponto brilhante a sair da formação de bombardeiros e a aproximar-se rapidamente na minha direcção!  Instantaneamente senti um grande impacto no cockpit e o meu Fw 190 mergulhou de nariz.  Quando olhei para trás vi dois grandes buracos na "canopy", logo atrás da minha cabeça!  Entretanto surgiram os P-51 Mustang, interceptados rapidamente pelos Fw 190D-9 do II gruppe, responsável pela nossa protecção.  O curso dos eventos a seguir foi o usual, a cada minuto os caças americanos aumentavam em número e em pouco tempo os nossos aviões passavam de caçadores a presas, tentando todas as acrobacias para fugir aos inimigos.  Que bom seria combater em termos iguais, a JG 301 nunca teve esse luxo, lutamos sempre contra um adversário muito mais numeroso.  Nunca conhecemos um tipo diferente de combate, aliás, nem conseguíamos imaginar como seria..."

A mira giro-estabilizada padrão da Luftwaffe, Revi C12.  Na foto da direita, vê-se o circulo iluminado a funcionar correctamente, um luxo que Reschke não dispôs no dia 31 de Dezembro...

"Como tinha o avião muito danificado tentei descer mas agora os P-47 Thunderbolt juntavam-se à festa.  Os minutos seguintes foram terríveis, com toda a minha atenção focada na cauda enquanto tentava fugir do pandemónio de aviões inimigos e, como se não bastasse, o assobio do vento da "canopy" furada causava-me ainda mais stress.  Disparava sempre que podia, mas era mais para me acalmar porque sem a mira pouco podia fazer.  Finalmente consegui sair do combate e aterrei em Luneburg ás 12h10.  Enquanto reabastecia vi que, além da "canopy", as asas e a fuselagem estavam muito danificadas.  Quando regressei a Stendal e perguntei ao meu mecânico, o cabo August Napiwotzki, que a mira Revi não funcionou ele ficou muito vermelho e dirigiu-se para o hangar!  Voltou com uma lâmpada na mão - enquanto fazia a inspecção do meu avião durante a manhã, a lanterna fundiu e, como não tinha sobressalente à mão, decidiu usar a lâmpada da mira, mas esqueceu-se de a colocar no lugar!  Percebi que ele queria enfiar-se num buraco no chão e quando viu os estragos na "canopy" ficou branco como a cal.  O que é certo é que na noite seguinte, apesar de ser a passagem de ano, ele não deve ter dormido muito, pois cedo de manhã o meu Fw 190A-8 estava pronto e imaculado na pista.  Eu tinha mesmo um mecânico extraordinário!"

A Luftwaffe e a JG 301 entravam agora em 1945, o sexto e derradeiro ano da guerra.

Fw 190D-9, chamados habitualmente como "Dora-9", da oitava staffel da JG 301.

Icterio

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Episódio 4, Janeiro de 1945

Os primeiros dias de 1945 não foram diferentes dos últimos de 1944, mais ataques estratégicos americanos maciços, com intermináveis centenas de bombardeiros e caças de escolta.  Depois das pesadas baixas sofridas em Dezembro, a JG 301 (assim como todos os outros jagdgeschwader na defesa do Reich) estava muito longe da força máxima e o moral não melhorou com duas ordens surpreendentes do Alto Comando; primeiro, iriam ser transferidos para a Frente Leste!  Segunda novidade, o III gruppe tinha sido escolhido para receber o novo caça Focke-Wulf Ta 152H, uma evolução do Fw 190D.  Nesta altura a situação militar tinha piorado muito, a ofensiva nas Ardenas era um claro fracasso, os ataques Aliados intensificavam-se e os novos pilotos substitutos não estavam preparados para enfrentar o inimigo.  Em 4 de Janeiro todo o esquadrão foi transferido para Norte de Dresden.  O Stab e II gruppe estabeleceram-se em Welzow, o I gruppe em Finsterwalde e o III em Alteno, perto de Luckau. 



Como os novos Ta 152H não se materializaram, o III./JG 301 continuou a treinar pilotos nos Fw 190A-8.  No dia 14 de Janeiro regressaram ao combate, o objectivo, uma formação de 911 bombardeiros e 860 caças de escolta que se dirigiam para o Norte da Alemanha.  Aproveitando a excelente visibilidade desse dia e a sua superior altitude, os americanos surpreenderam os Fw 190 do III gruppe e abateram de imediato o líder da formação.  Depois deste abate o piloto do Mustang levantou o nariz para ganhar altitude e voltar a atacar mas Willi Reschke surgiu na sua cauda.  Os disparos dos seus canhões falharam por pouco a "canopy" do adversário que virou rapidamente sobre a asa esquerda.  Reschke não se impressionou, repetiu a manobra do americano, aproximou-se e atingiu o P-51 que, por momentos, quase parou no ar antes de cair sem controlo.  Durante este combate Reschke afastou-se da formação e decidiu regressar a baixa altitude à base.  Nesse momento avistou dois P-47 que se aproximavam pela direita.  Mas o seu Fw 190A-8 mostrou-se mais ágil a 2000m que os pesados e "imensos" aviões inimigos.  Numa rápida manobra, um dos P-47 foi atingido pelos disparos certeiros do Focke Wulf e começou a largar uma espessa cortina de fumo preto.  Abandonou rapidamente a área com o seu "asa" a imitá-lo, ambos com pouca vontade de continuar o combate. 

A baixas e médias altitudes o Fw 190A, equipado com o excelente motor radial BMW 801D, era um adversário muito perigoso para o pesado P-47 Thunderbolt.

Enquanto isto, os colegas de Reschke, atacados por numerosos P-51 com a vantagem da superior altitude, sofreram pesadas baixas.  O Stab perdeu um piloto, o I./JG 301 perdeu 11 aviões e 5 pilotos, o II./JG 301 perdeu 10 aeronaves e 9 pilotos e o III./JG 301 perdeu 6 aviões e 4 pilotos!!  Neste dia 14 de Janeiro de 1945, que ficou conhecido como "Domingo Negro", o geschwader sofreu a perda de quase um terço do seu pessoal, 19 pilotos mortos e 8 feridos.  A pressão psicológica nos pilotos restantes era esmagadora, especialmente para os menos experientes, que viam as hipóteses de perderem a vida no dia ou na semana seguinte, como uma certeza.  As esperanças de chegar ao fim da guerra eram cada vez mais ténues...

Um Fw 190A-8 do Stab do I./JG 301.  De notar a nova "canopy", que oferecia melhor visibilidade.

nunopinheiro

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Fabulosa ilustração

Byte Boador

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Obrigado pela partilha Icterio

Adorei a parte do mecânico que lhe "roubou" a lâmpada da mira para a colocar na lanterna  ;D
“Success is not final, failure is not fatal.
It is the courage to continue that counts“

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Icterio

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Episódio 5, Finais de Janeiro de 1945

No dia 20 de Janeiro chegou a temida ordem para a JG 301 se transferir imediatamente para aeródromos no Leste.  A missão; atacar colunas motorizadas soviéticas que se aproximavam perigosamente do rio Oder, a derradeira fronteira e último obstáculo natural antes de entrar em território Alemão.  Os poucos aviões disponíveis foram distribuídos por bases em Zagan, Zary, Poznam e Sroda na Silésia, Polónia.  As más condições meteorológicas e o rápido avançado do Exército Vermelho impediram missões efectivas.  As unidades em Poznam e Sorau tiverem de ser rapidamente evacuadas quando tanques russos apareceram de súbito nas imediações da pista!!  Toda esta operação mereceu fortes críticas dos pilotos, a JG 301 era uma unidade pura de caça, não tinham nenhum treino para missões de ataque ao solo.  Além de gastarem combustível precioso, apenas serviu para acumular mais perdas humanas, entre 20 e 26 de Janeiro, morreram 8 pilotos, um desapareceu e 3 ficaram feridos. 


Entretanto, o HQ da Luftwaffe emitiu a seguinte ordem; "Em relação ao desenvolvimento da unidade de teste (E-Kommando Ta 152), o III./JG 301, como unidade combate, será equipado com o Ta 152H-1.  Em adição, o gruppe manterá os aviões actuais (Fw 190A-8)". Na manhã do dia 27 os pilotos foram transportados de camião até à fabrica em Neuhausen perto de Cottbus onde deveriam receber os novos aviões e levá-los de volta para a base em Alteno.  Quando se levantaram dos desconfortáveis bancos de madeira e entraram nas imediações da fábrica, depararam-se com 12 Focke Wulf Ta 152H-0 e H-1 perfeitamente alinhados.  O primeiro impacto não foi agradável, parecia um Fw 190 com um "nariz" demasiado longo e com asas compridas e delgadas, pouco condizente com um verdadeiro caça.  Sem grande emoção, os pilotos deambulavam entre os estranhos aparelhos e trocavam impressões com os técnicos da Focke Wulf.  Depois de meia-hora de introdução ás características técnicas, os pilotos sentaram-se no cockpit e prepararam-se para o curto voo até Alteno. 

O protótipo Ta 152 V5 na fábrica em Cottbus.  Este aparelho serviu de base para a versão de produção H-1.

Para termos uma ideia da urgência (e desespero) em que se encontrava toda a estrutura militar alemã, é curioso considerar que as primeiras unidades (protótipos e alguns aparelhos de pré-serie) tinham sido entregues ao Erprobungskommando Ta 152 (unidade de teste) apenas em Novembro-Dezembro.  Quando a JG 301 recebeu a ordem para "estrear" o Ta 152 em combate, os pilotos de teste tinham acumulado apenas algumas dezenas de horas de voo!!  Havia ainda imensos problemas (pequenos e grandes) para resolver e aperfeiçoar mas não havia tempo para nada.  A acrescentar a isso, as dificuldades em obter peças sobressalentes, o deficiente controlo de qualidade nas fábricas e a falta de combustível contribuíam para atrasar ainda mais todo o processo.

Seis Ta 152H na base em Alteno.  As marcações operacionais (faixas vermelha-amarela na cauda) indicam que já estão na posse da JG 301.

Voltando á recolha dos Ta 152 em Cottbus, Willi Reschke conta como foi o primeiro voo; "A aceleração na descolagem era tão forte que empurrava o corpo contra o assento.  Em poucas centenas de metros já estava no ar e a velocidade de subida era impressionante.   A grande envergadura era pouco usual mas quanto à visibilidade lateral e espaço no cockpit - muito bons."   Os planos iniciais de reequipar o III./JG 301 com 35 Ta 152 foram por água abaixo quando os Russos capturaram a fábrica de Malbork na Prússia Oriental.  Para já, apenas 16 aparelhos foram entregues.  Mas as opiniões dos pilotos eram cada vez mais entusiásticas e como ainda dispunham dos Fw 190A-8 podiam fazer comparações directas.  O motor Jumo 213E era particularmente apreciado, muito potente e capaz de oferecer excelentes prestações a grande altitude, algo que a Luftwaffe precisava desesperadamente.  Conseguia ser mais manobrável a média altitude que o aclamado Fw 190 e subia como um foguete até aos 10000 metros.  Porquê esta diferença, tendo em conta que o Fw 190D-9 também estava equipado com o motor Jumo 213?

Ta 152H-1 da 7./JG 301 usado em combate por, entre outros, Willi Reschke em 1945.

A resposta é que o Ta 152 tinha o Jumo 213E, equipado com um compressor de duas etapas (o 213A do Fw 190D-9 tinha apenas uma) que permitia manter a potência a maior altitude que a versão base.  Além disso, alguns aparelhos (nem todos) vinham equipados com o sistema MW 50 (injecção água-metanol) que permitia aumentar e manter maiores pressões do compressor, oferecendo um aumento substancial de potência a baixas e médias altitudes.  Mais animados e confiantes nas capacidades e performances do Ta 152, restava agora aos pilotos da JG 301 experimentar o aparelho no teste final; o combate contra a imensa avalanche de aviões americanos, ingleses e russos que diariamente acossavam as cada vez mais exíguas fronteiras da Alemanha...
« Última modificação: 01 de Junho 2019, 19:59:36 por Icterio »


BMF

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Obrigado pela partilha. Não consigo dar likes pelo Tapatalk

Icterio

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Episódio 6, Fevereiro e princípios de Março de 1945

Nos finais de 1944 a Luftwaffe, sempre empenhada em aumentar a força de caças, ordenou a criação de um quarto gruppe para a JG 301 (IV./JG 301).  Equipado com Messerschmitt Bf 109G-10, essa unidade estreou-se em combate em missões ar-solo na Frente Leste em 4 de Fevereiro de 1945.  Logo nessa primeira missão perdeu dois pilotos, incluindo o próprio comandante, o capitão Wilfried Schmitz!  O gruppe continuou durante duas semanas em operações a Leste do rio Oder.  No dia 19 toda a JG 301 foi transferida para a sua zona de origem, a Alta Saxónia.  O stab e II gruppe para Stendal, o I gruppe para Salzwedel, o III para Sachau e o novo IV gruppe para Gardelegen.  Apesar de tudo, todos estavam entusiasmados em regressar à Alemanha e reencontrar amigos e conhecidos.  No dia 25 o I, II e III/JG 301 descolaram para interceptar uma formação de bombardeiros americanos.  O cabo Heinrich Panno da 1./JG 301 conta parte do que aconteceu;


"No dia 25 (esse dia ficou gravado na minha memória) voei da Silésia para Salzwedel.  Não pude aterrar de imediato porque todo o gruppe estava na pista a preparar-se para descolar.  Ouvi no radio que bombardeiros inimigos estavam próximos e fiquei atento a caças inimigos.  Assumi que teria de aguardar mas em vez disso um flare verde foi disparado, o que autorizava a minha aterragem.  Aterrei, levei o avião para o hangar e enquanto me dirigia à sala de operações parei para apreciar a descolagem do gruppe.  Os aviões do 1. staffel já estavam no ar a recolher o trem quando 4 P-51 Mustang surgem a baixa altitude sob o aeródromo com todas as armas a disparar!  Um Fw 190 caiu na pista, outro incendiou-se e um terceiro ficou a fumegar.  Momentos depois vi duas explosões à distância."  Quatro Fw 190 foram abatidos durante a descolagem, todos os pilotos morreram.  Nesta altura o domínio dos ares por parte dos Aliados não permitia um único momento de distracção aos pilotos alemães, em especial nas aterragens e descolagens.   

Nesta imagem de um Ta 152H-0 é possível apreciar as placas frontais reforçadas (70mm) de plexiglass.

Durante as primeiras horas da manhã de 2 de Março a 8th Força Aérea enviou a fabulosa formação de 1232 bombardeiros pesados e 774 caças P-47 e P-51 contra alvos em Bohlen, Chemnitz e Magdeburg.  Novamente, todos os aviões disponíveis da JG 301 foram lançados para os interceptar.  O III gruppe lançou 12 dos novos Ta 152H-0/H-1 e 12 Fw 190A-8/A-9.  Devido à melhor performance os Ta 152, liderados pelo tenente Stahl, iriam atacar os caças permitindo que os Fw 190 tratassem dos bombardeiros.  Os Ta 152 ganhavam rapidamente altitude, dando cobertura aos outros aviões quando, a 8000m, avistam os Bf 109G do IV gruppe.  Stahl ficou contente com este inesperado apoio quando, inesperadamente, os Bf 109 abriram fogo sobre eles!!  Com tracejantes a cruzarem à sua frente, Stahl quebrou o silêncio de rádio e ordenou aos Bf 109; "Continuem a subida, mantenham a formação!!"  Apesar de várias tentativas de contacto os Messerschmitt continuavam a atacar obrigando os pilotos dos Ta 152 a romper a formação para se salvarem.  Durante este caos um grande número de P-51 Mustang aproximou-se sem ser notado.  Os pilotos do IV gruppe, que até à altura só tinham operado na Frente Leste, não tinham experiência em lidar com caças da USAAF.  A acrescentar a isso, quase todos vinham do III./KG 1 "Hindenburg", uma unidade de bombardeiros.  Como seria de esperar sofreram terríveis baixas, em poucos minutos os americanos abateram 13 Bf 109G-10, matando 8 pilotos e ferindo 5.  Como o gruppe não podia compensar tamanhas perdas não voltaram a participar numa missão conjunta e, após algumas semanas, a unidade foi desactivada e o pessoal foi dividido entre os outros três gruppes.

Bf 109G-10 "Red One" da 14./JG 301. 
O caça metia respeito mas o piloto provavelmente estaria mais à vontade aos comandos de um Heinkel He 111 ou Junkers Ju 88...

O I./JG 301 perdeu 3 aviões (um morto e dois desaparecidos) e o II gruppe 9 aviões (8 pilotos mortos e um ferido), o que totalizava 17 preciosos pilotos perdidos...  Apesar de serem atacados por Bf 109 e P-51, o III gruppe não sofreu qualquer baixa!  Não sobreviveram registos dos abates efectuados pela JG 301 nesse dia mas é sabido que a USAAF confirmou a perda de 15 bombardeiros e outros tantos caças.  Certamente que 80% destes aparelhos foram vítimas dos pilotos da JG 301.  A operação de 2 de Março foi a última batalha de grandes dimensões para estes desgastados pilotos alemães.  O fim estava perto...

Este foi o último padrão de equipamento de voo da Luftwaffe.  Composto de duas peças, capacete de pele preta e máscara de oxigénio, esta indumentária tinha um aspecto futurista e ameaçador.  Talvez por isso os pilotos fizessem questão de portar uma faixa amarela na manga esquerda com as inscrições "Deutsche Luftwaffe" para tranquilizar os locais no caso de serem abatidos em território nacional!! 
Será esta a inspiração para os pilotos dos TIE fighter?...

Nota; Se encontrarem nos vossos livros/fontes mais algumas fotos em que note bem este equipamento de voo, partilhem.
  Daquilo que vi, só começou a ser usado em 1945, particularmente em unidades de Me 262.
« Última modificação: 02 de Junho 2019, 04:23:03 por Icterio »


Icterio

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Episódio 7, Março e princípios de Abril de 1945

Apesar das excelentes prestações dos Ta 152 do III gruppe, tornava-se cada vez mais difícil mantê-los no ar.  Além de serem, no melhor dos casos, aviões de pré-produção (e, por isso, com vários defeitos e ainda em fase de teste operacional) as dificuldades da industria alemã não permitiam que novos aviões fossem entregues com a regularidade desejada.  Obter peças sobressalentes era outro pesadelo.  Foi assim decidido agrupar os poucos Ta 152 existentes no stabschwarm juntamente com mais 4 pilotos experientes; Reschke, Blum, Sattler e Keil.  (O stabschwarm (ou apenas stab) era a unidade de comando do gruppe/geschwader, composto pelo comandante e mais 2 ou 3 assistentes.  Eram unidades pequenas (3-4 aviões) mas compostas, geralmente, de pilotos de grande calibre e competência.)

Cena típica no aeródromo de Stendal em Março.  A escassez de combustível era tão grave nesta altura que eram usados animais de carga para movimentar os aviões em terra.

No dia 13 de Março Reschke descola de Stendal com a missão de interceptar um Mosquito de reconhecimento.  Com estações de radar Freya e Wurzburg instaladas nas redondezas, não foi complicado direccioná-lo até ao avião inimigo.  O Inglês estava já de regresso à base a cerca de 9000m de altitude quando Reschke se posiciona algumas centenas de metros mais abaixo.  Depois de reportar pelo rádio que iria iniciar o ataque, e com o Mosquito a preencher plenamente a mira Revi, o compressor do Ta 152 falha e desacelera o aparelho abruptamente.  Impávido e sereno, o avião Inglês afasta-se tranquilamente enquanto Reschke regressa à base a "rosnar" impropérios... A famosa qualidade de fabrico alemã já não era a mesma de à uns poucos meses atrás.

Fw 190D-9 do II./JG 301 em alerta em Stendal.  De notar o tanque externo de 300 litros.

A partir da segunda quinzena de Março a JG 301 executou, quase em exclusivo, missões de caça-bombardeiro contra alvos terrestres em ambas as frentes.  Nestas ocasiões era comum encontrar aviões ingleses, americanos ou soviéticos.  Particularmente activos neste período final da guerra, os caças americanos (operando em pequenos grupos) perscrutavam todo o território alemão a média altitude atacando todo o tipo de alvos.  Estes contactos eram muito perigosos para os pilotos alemães, especialmente quando apanhados sozinhos em voos de transferência entre bases.  No dia 27 de Março três pilotos morreram nestas exactas circunstâncias.  Alguns dias depois, em 2 de Abril, um Fw 190A-9 despenhou-se perto de Ifta na Turínguia e os destroços do avião só foram encontrados, por mero acaso, em 1996!!  Outro Fw 190 resistiu a danos provocados pela AAA, conseguiu regressar à base mas acabou por ser abatido por um P-51 Mustang durante a aproximação.  A área ocupada pelo exército alemão em Abril de 1945 era tão exígua que desde o amanhecer ao anoitecer as patrulhas de caças inimigos eram uma constante.  Para combater esta ameaça as descolagens dos caças alemães eram efectuadas apenas aos pares e apenas por pilotos muito experientes, chamados platzschutzschwarne, ou unidades de protecção de aeródromo.  Tinham a função de proteger a base dos caças inimigos e permitir que os outros aviões pudessem aterrar ou descolar.

O terror de qualquer unidade da Luftwaffe (e de toda a Wehrmacht!), caças P-51 Mustang a semear caos e destruição a qualquer hora do dia e sem aviso.

Na manhã do dia 8 de Abril, a JG 301 recebeu ordem para recolher dois Ta 152 novos em Erfurt, na Turínguia, e trazê-los de volta a Stendal.  Reschke e Blum descolaram num inofensivo e vulnerável Arado Ar 96 de treino avançado e voaram à mais baixa altitude possível, entre vales e montanhas, para evitar as patrulhas aliadas.  Reschke recorda; "Conseguimos chegar a Erfurt sem problemas mas ficamos apreensivos quando fomos informados que não havia munições para os canhões dos Ta 152...  Quando estávamos na pista prontos a descolar as sirenes de alarme disparam; "Achtung Jabos!!", caças americanos aproximavam-se da base!!  Apesar de pilotarmos aviões bastante rápidos, o facto de estarem desarmados impedia manobras defensivas eficazes.  Felizmente não encontramos nenhum inimigo nessa altura e aterrámos sãos e salvos em Standal e com mais dois preciosos Ta 152H-1 disponíveis para as operações."

Reschke e Blum voaram num Arado Ar 96 (avião de treino avançado usado também em funções de ligação e comunicação) semelhante a este no dia 8 de Abril.  As hipóteses de sobreviver contra um caça Spitfire, Mustang ou Thunderbolt eram...escassas.

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