Icterio

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Episódio 1, Maio de 1940

No dia 10 de Maio de 1940 em Schipol (Amesterdão) um DC-3 da KLM, apelidado carinhosamente "Ibis" (o primeiro a operar na Europa, montado pela Fokker e entregue à KLM em 1936) aguardava pela sua tripulação e passageiros para iniciar um voo até Shoreham na Inglaterra.  Tal não sucedeu porque esse dia ficou marcado pelo início da invasão da Europa Ocidental pelas forças armadas Alemãs.  Ás 4 da manhã o aeroporto de Schipol foi bombardeado e um total de 14 aviões da KLM ficaram inutilizados.  No dia 13 os Alemães avançavam a bom ritmo e algumas tripulações holandesas decidiram retirar todos os aviões em condições de voar (alguns nem por isso) para fora do país através do Mar do Norte em direcção à Inglaterra.  Em boa hora o fizeram porque logo no dia seguinte, a 14 de Maio, o governo Holandês capitulou e todos os aviões retidos foram apreendidos.

Um DC-3 ainda em Schipol antes da evacuação para Inglaterra.  A pintura laranja de alta visibilidade (para indicar um avião civil) indica que a guerra já tinha começado.

No total, seis aviões DC-2 e DC-3 chegaram sãos e salvos a Inglaterra e depois de algumas negociações o Ministério do Ar Inglês e o Governo Holandês (no exílio) decidiram que esses aparelhos (e tripulações) eram adequados para operar uma ponte aérea entre as Ilhas Britânicas e Portugal.  Para tal, foram concedidas as respectivas licenças e matrículas inglesas aos aviões da ex-KLM que seriam operados pela BOAC.   Antes da guerra não havia voos directos da BOAC para Portugal mas a partir desta altura essa opção tornou-se extremamente desejável; Portugal era um país neutral, bem posicionado no Sul da Europa para as ligações de trânsito com as forças Inglesas em África e no Mediterrâneo.  Aliás, Portugal conseguiu a quadratura do círculo em termos políticos (ou circulatura do quadrado?) pois além de preservar a histórica Aliança de amizade com os Ingleses, mantinham também boas relações com a Alemanha de Hitler.  O primeiro voo dos pilotos holandeses ao serviço da BOAC foi planeado para 25 de Julho de 1940, e essa honra caberia ao ilustre DC-3 Ibis.  O serviço descolou de Heston em direcção a Oeste e depois de contornar as Ilhas Scilly rumou Sul-Sudoeste ao longo do Golfo da Biscaia pelo Paralelo 7.  O voo de regresso no dia seguinte correu da mesma forma, ou seja, sem incidentes.


Estes primeiros voos usavam o aeródromo de Sintra, com poucas condições e sem pista asfaltada.  Ironicamente os escritórios da companhia aérea de bandeira alemã, a Lufthansa, operavam no lado oposto aos da BOAC e os passageiros de ambas conviviam no mesmo espaço enquanto aguardavam os seus voos!!  A atmosfera por vezes tensa era uma câmara perfeita para clássicos de espionagem à boa maneira de Tom Clancy.  Todos os voos dos DC-3 eram feitos em plena luz do dia e de forma regular, geralmente 4 vezes por semana.  Parece incrível como tal era possível em pleno Golfo da Biscaia com caças alemães de longo alcance baseados na costa Francesa.  Havia claramente um acordo de cavalheiros entre Ingleses e Alemães que permitia esta ponte aérea pelas vantagens que proporcionava a ambos.  Era transportado correio de prisioneiros de guerra, assim como correio diplomático, bem como jornais ingleses (que os alemães apreciavam para analise militar) e um grande espectro de passageiros importantes; oficiais governamentais e militares, fugitivos de países ocupados e homens de negócios.  No primeiro ano foram transportados 1500 passageiros em total segurança e no segundo ano subiu para 4000, com duas extensões por semana até Gibraltar, tudo sem incidente.  E isto, apesar de todos os movimentos serem feitos à vista do pessoal da Lufthansa, que reportava cada movimento aos seus superiores no Reich.  Seria para durar?...   

Um DC-3 na Portela, um aeroporto calmo, desafogado, sem filas nem empurrões...

lockheed

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Bela história, não sabia! Obrigado pela partilha!

Abraço

ClearedForTakeOff

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Houve um abatido pela LW.

Icterio

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Sam31

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Que bela e interessante história.

Aguardo ansiosamente os próximos capítulos.

Icterio

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Episódio 2, Novembro de 1942 a Maio de 1943

Foram realizados mais de 500 voos até ocorrer o primeiro incidente em 15 de Novembro de 1942.  O DC-3 Ibis transportava 12 passageiros a cerca de 3000m de altitude acima de um tecto de nuvens baixas a 1000m num dia com boas condições meteorológicas.  Ao cruzar as Ilhas Scilly o piloto preparava-se para virar à direita rumo ao Estreito de Bristol quando um Messerschmitt Bf 110 mergulha sobre a sua traseira de uma altitude superior (manobra ofensiva "textbook") a disparar uma torrente de balas (os Bf 110 carregavam um armamento particularmente pesado, uma herança das funções Zerstorer, neste caso 4 MG de 7,92mm e dois canhões MG FF de 20mm).  Duas janelas da cabine estouraram e o piloto (um Holandês chamado Verhoeven) mergulhou a pique para a segurança das nuvens mais abaixo.  O alemão ainda conseguiu executar mais dois ataques, danificando a asa esquerda, antes que o DC-3 desaparecesse no manto branco.  Mas com os motores e tanques de combustível intactos, o Ibis coxeou a 500m de altitude até aterrar em Chivenor.  Este episódio ocorreu 5 dias após os desembarques Aliados no Norte de África, o que fez aumentar a actividade aérea no Golfo da Biscaia, e a explicação mais óbvia era de que o Alemão confundiu o DC-3 com os muitos Douglas C-47 (basicamente o mesmo avião) que cruzavam a zona com suprimentos militares para o Mediterrâneo.

Localização aproximada do ataque do dia 15 de Novembro e (direita) os estragos no lado esquerdo do DC-3.
   

Os voos para Lisboa continuaram normalmente até suceder novo "encontro" com a Luftwaffe, em 19 de Abril de 1943.  Apesar desta ligação ser servida por 4 DC-3 e um DC-2 (todos ex-KLM) a fava saiu novamente ao DC-3 Ibis!  Nesta ocasião o aparelho era capitaneado por Dick Parmentier e transportava apenas 3 passageiros de Whitchurch para Lisboa.  O tempo não estava famoso e o piloto variava a altitude entre os 1000 e 1500m para manter alguma visibilidade entre as formações de nuvens.  De súbito surgem 6 Bf 110 sem convite e com más intenções, Parmentier mergulha instintivamente para ganhar velocidade mas os alemães fazem o mesmo.  Vendo um banco de nuvens mais acima, Parmentier levanta o nariz do Ibis numa subida pronunciada mas é atingido várias vezes devido à perda de velocidade.  Ao chegar à segurança das nuvens, Parmentier mantém a altitude a 1000m e consegue chegar a Lisboa apesar de um tanque de combustível furado, uma asa danificada e mais alguns buracos na fuselagem que não estavam presentes no design original.

Localização aproximada do ataque do dia 19 de Abril.

Preocupados com a segurança dos voos diurnos, as tripulações concordaram que seria mais seguro voar sempre acima dos bancos de nuvens e mergulhar se atacados ao invés de voar a baixa altitude e ser obrigado a subir com as desvantagens inerentes.  Outra preocupação com este segundo ataque é que não parecia provável que 6 pilotos (e mais 6 observadores) tivessem dúvidas quanto à identidade civil do DC-3.  Depois de Abril, Dick Parmentier debateu com o Ministério da Aviação Civil formas de melhorar a segurança da ligação e algumas das sugestões foram; não voar sem cobertura de nuvens, aumentar o raio da rota ainda mais para Oeste (longe das bases da Luftwaffe na França) ou mudar para operações nocturnas, o que exigia a suspensão das operações para que os aviões fossem devidamente modificados para o efeito.  Parmentier não queria ouvir falar em suspender o serviço, antes preferia obter novos aviões (C-47) já aptos para voos nocturnos.  Por outro lado, os serviços de espionagem Ingleses (MI5) estavam confiantes de que não existiam ordens do Comando da Luftwaffe para interceptar os aviões da ligação para Lisboa (não esquecer que os Ingleses, através do projecto Ultra, conseguiam descodificar as mensagens alemãs) e concluiu-se que os ataques de Novembro e de Abril decorriam da maior actividade inimiga normal no Golfo da Biscaia (por outras palavras, "tiveram azar").  Também concluiu-se que alterar a rota mais para Oeste não iria trazer grandes benefícios porque ainda ficava no alcance dos caças da KG 40.  Assim sendo, durante este impasse os voos continuaram "as usual"...até Junho.

Dois Messerschmitt Bf 110 em patrulha algures no Mediterrâneo.  Foram aviões como este que por duas vezes quase "reformaram compulsivamente" o Douglas DC-3 Ibis.
« Última modificação: 09 de Novembro 2019, 23:01:54 por Icterio »


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